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Kentucky Route Zero – Neoliberalismo, Luto e Comunidade

FernandoHCS 07/09/2020


Background
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Shannon: Ah, aqui estamos. Pode ser difícil de acreditar – eu acho difícil de acreditar –, mas toda essa parte estava submersa, pelo que eu soube.

Conway: Como aconteceu?

Shannon: Algum mineiro descuidado ou alguma máquina automática perfurou um lago subterrâneo. A água inundou tudo rapidamente e vários trabalhadores ficaram presos nos túneis. Eu só ouvi partes de como foi a partir daí – tudo higienizado para aqueles em luto… você sabe como as grandes empresas são.

Shannon: Mas haviam rumores também. Os mineiros presos não conseguiam ligar as bombas de drenagem porque a energia foi racionada, então eles desligaram as luzes. Mas nem isso foi o suficiente.

Shannon: Então eu imagino que estava escuro, quando eles…


Esse diálogo ocorre no primeiro ato de Kentucky Route Zero (2020), que saiu no ano de 2013 e demarcou uma das temáticas que iria atravessar toda a história do jogo que levou 7 anos para ser concluído. Mas o que houve exatamente para que esses trabalhadores morressem? Algo que estamos muito acostumados a ver em nosso dia a dia, fora dos videogames: tragédias perpetradas pelo descaso de corporações que pouco fazem para evitar acidentes, como os recentes exemplos de Mariana e Brumadinho, ambas da mineradora Vale S.A[1], que somam juntas mais de 280 mortes (G1, 2019; 2020).

Mas rompimentos de barragem não são os únicos desastres que o Brasil vem sofrendo, temos também vazamento de óleo, desmatamento, água envenenada, agrotóxicos e, há 6 meses, uma pandemia. Esses desastres são realizados por empresas, Estado ou parcerias público-privadas. Mas como chegamos nesse capitalismo tardio caracterizado por uma espécie de realismo distópico, representado em Kentucky Route Zero pelo setor privado sob o nome de Consolidated Power Co. (Poder Consolidado, em tradução livre) e pelo poder público no Departamento de Espaços Recuperados?

Uma das respostas possíveis está no modelo econômico que se tornou hegemônico no final dos anos 1990 e que surgiu para revitalizar um capitalismo que encarava crescentes crises no início dos anos 1970, o neoliberalismo.

NEOLIBERALISMO

A ideologia neoliberal é definida por David Harvey (2006) como, em princípio, uma teoria política de práticas econômicas focada na ideia de que o bem-estar humano pode ser melhor promovido pela maximização das liberdades de empreendimento dentro de uma estrutura que prioriza a propriedade privada, liberdade individual, livre mercado e livre comércio. Logo, o Estado deveria ficar em cargo apenas de garantir a propriedade privada e a manutenção do livre mercado, além de outros fatores, como o exército, polícia e sistema jurídico.

O neoliberalismo surgiu em meio a crises cada vez maiores do capitalismo, que após algumas décadas de bem-estar social promovido por políticas da social democracia em resposta às revoluções socialistas pelo mundo, viu o surgimento de diversas recessões que tiveram seu auge na crise do petróleo, devido ao embargo promovido pelos países árabes, membros da OPAEP (Organização dos Países Árabes Exportadores de Petróleo), durante a guerra Árabe-Israelense em 1973 (HARVEY, 2006).

As crescentes crises, desemprego e instabilidade geraram uma convulsão social e movimentos socialistas ganhavam força novamente, culminando em 1968 com os maiores protestos que tomaram as ruas dos EUA, Europa e até o Brasil, em plena ditadura militar[2].

A primeira aplicação do neoliberalismo em grandes proporções ocorreu no Chile, após o golpe de Pinochet instaurar uma ditadura que, apoiada pela CIA e pelo Secretário de Estado Henry Kissinger, derrubou Salvador Allende, o primeiro presidente socialista eleito na América. Com uma nova ditadura livre para realizar as mudanças e experimentações que o neoliberalismo precisava, todos os movimentos sociais foram dissolvidos, assim como organizações populares, sindicatos e o mercado foi desregulado.

Com a ajuda dos chamados Chicago Boys, economistas fieis às teorias neoliberais, eles:

[…] privatizaram ativos públicos, abrindo recursos naturais para a exploração privada, facilitando o investimento estrangeiro direto e o livre comércio. Foi garantido o direito de as empresas estrangeiras repatriarem lucros de suas operações chilenas. (HARVEY, 2006, p. 4).

Vale ressaltar que o atual ministro da economia, Paulo Guedes, foi docente na Universidade do Chile, durante a ditadura de Pinochet, e morou no país pois “queria conhecer em primeira mão as reformas que os Chicago Boys estavam promovendo no país” (MONTES, 2018).

HEGEMONIA NEOLIBERAL

A experiência neoliberal no Chile rendeu os frutos esperados pela elite, realizando um rápido crescimento econômico e aumento a concentração de renda, enquanto as classes mais baixas ficavam de fora dos lucros e encaravam uma sociedade sem educação pública e seguridade social.

Segundo Gérard Duménil e Doinique Lévy (2004), o neoliberalismo seria, desde o início, um projeto de recuperação de poder das classes ricas após a crise de acumulação de capital nos anos 1970 e, segundo David Harvey (2006), foi em parte a eficiência com o qual esse objetivo foi alcançado no Chile que convenceu as elites a pôr em prática o modelo neoliberal em outras partes do mundo. Um dos casos recorrentes sobre como ocorreu a virada neoliberal nos EUA é representada pela quase falência de Nova York durante a crise fiscal de 1973 – 1975 que diversos outros estados também lidavam. Após a cidade ter a renegociação da dívida negada, a ajuda financeira recebida dos bancos demandou sérias mudanças estruturais à cidade, que significou:

[…] restringir as aspirações dos poderosos sindicatos municipais da cidade, demissões de cargos públicos, congelamento de salários, cortes programas sociais (educação, saúde pública, serviços de transporte) [..]. (HARVEY, 2006, p. 7).

Essas mudanças representaram um agravamento dos problemas da cidade, assim como a precarização da infraestrutura física e social de Nova York pela falta de investimentos e manutenção, resultando num cenário decadente que ficou famoso em clássicos do cinema como Taxi Driver (1976). Mudanças similares podem ser vistas na política de austeridade que o Brasil adotou nos últimos anos, como a PEC do Teto de Gastos, Proposta de Emenda à Constituição aprovada durante o governo de Michel Temer (MDB) em 2016 (AMORIM, 2016), que congelou o orçamento dos gastos públicos durante 20 anos.

As políticas neoliberais rapidamente se tornaram o novo modelo econômico hegemônico, do Chile de Pinochet, aos EUA de Reagan e a Inglaterra de Thatcher, o neoliberalismo foi implementado nos países centrais do capitalismo, mas a situação não foi diferente para as nações pobres. Sem a necessidade de golpes similares ao promovido no Chile, a implementação global do neoliberalismo foi imposta por organizações econômicas, como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, como bem relata Silvia Federici (2017), no prefácio de O Calibã e a Bruxa, de quando foi professora na Nigéria e testemunhou em primeira mão as imposições do FMI e do Banco Mundial para aprovar a ajuda financeira ao país em crise:

Os anos compreendidos entre 1984 e 1986 constituíram um ponto de inflexão para a Nigéria, bem como para a maioria dos países africanos. Foram os anos em que, em resposta à crise da dívida, o governo nigeriano entrou em negociações com o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial; […] O propósito declarado do programa consistia em fazer com que a Nigéria chegasse a ser competitiva no mercado internacional. Mas logo se percebeu que isso pressupunha um novo ciclo de acumulação primitiva e uma racionalização da reprodução social orientada para destruir os últimos vestígios de propriedade comunitária e de relações comunitárias, impondo desse modo formas mais intensas de exploração. (FEDERICI, 2017, p. 15).

Foi assim que a chamada “Guerra contra a Indisciplina” acabou com as terras comunitárias, regulou taxas de natalidade e atacou a vaidade da mulher nigeriana (FEDERICI, 2017). Diversos países Africanos passaram por processos similares, a fim de “modernizar” e inserir os mesmos na economia global. Não é de se espantar que em poucas décadas boa parte dos países no mundo haviam aderido a este novo modelo econômico.

É nesta realidade precarizada que Kentucky Route Zero se insere e constrói seu realismo fantástico como alternativa de um mundo sem futuro.

MORTE E LUTO

Como toda obra complexa, Kentucky Route Zero é sobre muitas coisas, mas identifico dois principais tópicos que estão presentes em todos os episódios: Morte e consequentemente como lidamos com ela nos processos de luto; e a formação de comunidades e como estas nos ajudam a sobreviver em um mundo decadente.

Mas antes de falarmos de morte, física e simbólica, uma sinopse é necessária. Kentucky Route Zero não coloca o jogador no controle de uma personagem, mas da ação e, como em uma peça de teatro, o jogador deve dirigir os diálogos e sentimentos dos diversos atores em cena. Situado em uma Kentucky mágica, quase uma Macondo estadunidense, o jogador inicia esse teatro na estrada com o entregador de antiguidades Conway, que logo conhece Shannon, que trabalha consertando TVs de tubo e teve seus pais vitimados no acidente da Mina Elkhorn, relato que abre este texto.

Logo fica claro e contexto decadente de onde vem as personagens de Kentucky Route Zero: Conway deve fazer sua última entrega em um endereço na misteriosa Rota Zero, já que sua empregadora e amiga fechou o negócio e está com Alzheimer; Shannon está prestes a ser despejada; Joseph, o frentista do posto de gasolina, não conseguiu seguir carreira como escritor, mesmo com sua formação acadêmica[3]; os irmãos Ezra e Julian foram provavelmente abandonados por seus pais para que suas dívidas não fossem herdadas; e a dupla de músicos Junebug e Johnny, são robôs que trabalhavam nas minas. Ambos estão em uma fase de autodescobrimento e dialogam diretamente com as representações queer, desconstrução de gênero e da família nuclear.

Não apenas os atores desse realismo fantástico estão em situações de risco, mas a própria Kentucky é carente de uma presença estatal adequada. A única representação dessa instituição é o Departamento de Espaços Recuperados, um prédio meio escritório, meio catedral, estando tanto fora, quanto dentro da antiga igreja, cuja função principal é o registro de endereços e o reaproveitamento destes para novas funções, geralmente cedidas à megacorporação Consolidated Power Co.

Como bem descreve Miguel Penabella (2018), Kentucky Route Zero é uma história sobre fantasmas, uma história ao qual personagens estão presos à um passado que ecoa no presente:

Fantasmas assombram locais ou objetos específicos, incapazes de descansar porque algum trauma deve primeiro ser resolvido […]. Esses espíritos rebeldes foram prejudicados em suas vidas passadas, e sua presença auspiciosa é simplesmente um chamado para lembrar que algo deve ser consertado. (PANABELLA, 2018).

Sejam os fantasmas bruxuleantes que pacificamente espreitam nas sombras da mina inundada ou os trabalhadores fantasmagorizados pelo trabalho eterno que devem prestar à Hard Times, uma destilaria de whisky subterrânea, a jornada pelas estradas de Kentucky está cheia de pendências passadas e figuras presas à um interminável luto pelo o que não foi.

É a imagem decadente do cavalo, um animal que representa a liberdade e força motriz, que estampa cada curva na jornada dessas pessoas e abre o jogo com a linda composição de um posto de gasolina construído no formato de um cavalo, em que apenas sua cabeça está fora da terra. Logo após uma conversa com Joseph, adentramos o interior do estabelecimento/cavalo, descendo até suas entranhas de metal e parafusos, para encontrar os oráculos deste conto, corporificados como Emily, Ben e Bob, que estão em uma partida de algum jogo de mesa. Assim como em uma história mítica, o trio pode predizer o futuro por meio de um artefato mágico, neste caso, um dado florescente de 20 lados. Ben informa que caso o dado caia com o número 5 para cima, o jogador pode mover sua peça para qualquer local do mapa e é desse jeito que Conway encontra o objeto, brilhando no interior de um cavalo de metal, definindo a incerteza de seu futuro.

Kentucky Route Zero utiliza a imagem dos cavalos de muitas formas, são eles que indicam a entrada da enigmática Rota Zero e também são eles uma conexão com o sobrenatural, com a liberdade, com a domesticação e, em última instância, com a morte desse espírito livre em um mundo que não enxerga pessoas, mas apenas a mão de obra pronta para exploração.

É com a realização de uma fantasia neoliberal que tanto permeia os videogames, como fica claro em Grand Theft Auto (BARRET, 2006) e vários outros títulos, que Kentucky Route Zero dialoga, apresentando as consequências de se viver num realismo capitalista totalizante, que se oferece como única opção possível (FISHER, 2009) e que, como afirmava Thatcher, “não existe alternativa” ao livre mercado. É nesse mundo precário que as personagens do jogo vagam, lidando com a falta de perspectiva, fugindo de dívidas até não poder mais e tendo a ingrata missão de enterrar seus mortos.

As próprias dívidas tomam a forma de um espectro, que perseguem Conway após ele ter contraído débito durante a visita guiada pela fábrica subterrânea de whisky. Esses espectros, que na verdade não passam de outros trabalhadores que perderam sua individualidade para trabalhar até a morte na Destilaria Hard Times, rodam os locais de Kentucky, sendo eles quem capturam os clientes em dívida com o bar The Lower Depths e perseguem Conway durante todo o Ato IV, até que o entregador, de volta ao alcoolismo e finalmente resignado, se entrega ao seu destino para nunca mais ser visto. Fica a cargo dos novos amigos e, talvez, família, realizar sua última entrega.

É também, durante o quarto Ato, que encontramos o memorial para os mortos na inundação da Mina Elkhorn. Capacetes dos que se foram estão empilhados no Echo River, um grande canal subterrâneo, e uma placa de madeira clama o local como memorial e túmulo, pois seus corpos jamais foram recuperados da inundação. Este mesmo rio também exerce uma função de representar o subconsciente, um mundo subterrâneo e onírico, uma espécie de rio Lete[4], onde personagens esquecem seu passado nas escuras águas, vivendo indefinidamente no subsolo. Mas é também o Echo River que leva o improvável grupo a achar DogWood Drive, o endereço final das entregas de Conway, onde o luto talvez dê lugar para um novo recomeço.

COMUNIDADE E SOLIDARIEDADE

“A gente não é de um lugar enquanto não tem um morto enterrado nele”.

Durante seus 5 episódios e prelúdios ­– que geralmente introduzem elementos de cada ato –, existe uma progressão na quantidade de interferência que o jogador possui e, em seu último ato, é onde o jogador possui menos controle direto sobre as ações. Controlando um gato preto encontrado no Echo River – na verdade você controla uma mariposa que atrai o gato ­–, o jogador deve explorar um espaço circular enquanto as personagens avançam a narrativa.

É importante destacar o cenário em que se passa este último ato. No prelúdio Um Pueblo de Nada, que antecede este momento, testemunhamos a equipe da WEVP-TV, uma TV comunitária que produz conteúdo local, gravar uma entrevista enquanto uma grande tempestade se aproxima. A TV comunitária marca presença em diversos momentos do jogo e possui uma importante conexão com Shannon, pois sua prima Weaver, que já trabalhou na estação de TV, usa o canal para passar mensagens misteriosas e é ela quem manda Conway até a Mina Elkhorn, onde ele conhece Shannon.

A noite que assistimos a equipe trabalhar em um de seus programas é a noite em que uma inundação destrói a estação e tudo é perdido. Na manhã seguinte, chegam ao local Shannon e o resto do grupo, subindo uma espécie de canal por onde a água da inundação escoou. Finalmente a última entrega de Conway pode ser realizada e, enquanto corremos com o gato pelo cenário, as personagens trabalham para limpar a pequena cidade dos destroços, levar os móveis ao endereço certo e enterrar os dois cavalos, chamados de Os Vizinhos, que habitavam o local e morreram na inundação.

Nomeados de O Prateado e O Outro, os cavalos eram os moradores mais antigos da cidade, chegando junto com os fundadores do local. A inundação remete ao um recomeço pós dilúvio bíblico, e suas mortes representam a morte do sonho americano, morte de uma narrativa que nunca se realizou pois essa é uma terra de exploração e escravização, jamais houve liberdade e tudo o que resta é enterrar os mortos.

Mas é no processo de tratar do corpo morto e sepultá-lo – algo que também foi perdido durante os últimos séculos para o mercado –, que podemos lidar com o processo de luto e, em grupo, como comunidade, é possível superar a perda. E é assim que termina Kentucky Route Zero. Todos aqueles que habitaram em algum momento aquele lugar, retornam em forma de espectros e se juntam ao grupo ao redor da cova para uma última canção fúnebre. Os Vizinhos e, com eles, o sonho americano, são enterrados e uma última música sobre uma terra prometida é cantada por todos. Esta terra prometida é, ao mesmo tempo, o sonho de prosperidade nunca realizado e o paraíso que todos aqueles que morreram buscando-o devem encontrar ao serem recebidos por Deus.

Assim, encaminhados para o além, todos os espectros do passado finalmente desaparecem para o descanso eterno e o grupo se divide. Alguns vão tentar a sorte em outro lugar, pois DogWood Drive traz muitas memórias ruins, outros deverão construir uma nova comunidade sobre as ruínas da última.

Poeticamente, a entrega que Conway deveria fazer desde o início em DogWood Drive Nº 5 eram móveis para uma casa vazia, que aparenta mais ser um portal ou a silhueta de uma igreja. Lá os novos moradores colocam os móveis destinado a eles desde o início da história e se assentam na nova moradia enquanto a câmera se afasta. Tela preta. Fim.

O RECOMEÇO DA HISTÓRIA

Kentucky Route Zero é uma obra que apenas poderia ter sido feita no momento atual. Um momento de capitalismo tardio, de realismo capitalista, onde as mazelas de um sistema de exploração que se reafirma nas crises ganha contornos cada vez mais insustentáveis enquanto detém o controle dos saberes e molda sua população a defender tal sistema na crença de que está é a única realidade possível. Uma realidade mediada pelo mercado, onde liberdade é sinônimo de poder de compra.

Não existe essa coisa de sociedade, o que há e sempre haverá são indivíduos“, disse Margaret Thatcher, quando o neoliberalismo se estabelecia como política econômica e transformou os saberes e modos de pensar do trabalhador. O banimento da esfera pública, dos espaços comunais e do pensamento social pavimentou o caminho para um mundo onde os sujeitos são acometidos por ansiedades manifestadas no consumo, na depressão, na apatia e no niilismo que se tornou tão presente na mídia. Mark Fisher (2014) captura muito bem essa desterritoralização sentida por sua geração, aquela que testemunhou a transição entre dois mundos e não encontra mais um futuro promissor. A próxima geração, a nossa, agora vive num mundo em convulsão social e possui a difícil tarefa de lutar por melhorias e trazer uma mudança epistemológica. Apenas não sabemos onde isso nos levará.

Vivemos esse limiar, e o que Kentucky Route Zero nos apresenta é um grupo de pessoas passando pelas mesmas dificuldades e lidando de diversas formas, mas uma mensagem se destaca. Apenas podemos superar essa crise histórica reconhecendo a necessidade da construção de comunidades orgânicas e do espaço público. É preciso lutar pelo fim do sujeito encerramento em si mesmo e produzir pessoas múltiplas, diversas e sociais.


[1] No caso do rompimento da barragem de Mariana, a responsável foi a Samarco S.A., controlada pela Vale.S.A. e a mineradora anglo-australiana BHP Billiton.

[2] Em 13 de Dezembro do mesmo ano seria assinado o Ato Institucional Número 5 (AI-5) durante o governo civil-militar de Costa e Silva, marcando o início da era mais repressiva da ditadura no Brasil (MOTTA, 2018).

[3] O jogo informa que Joseph possui pós-graduação em “eletronic writing” ou, em tradução livre, escrita eletrônica.

[4] Um dos rios do Hades. Aquele que beber ou mesmo tocar em suas águas perdem as memórias de sua vida passada.


REFERÊNCIAS

AMORIM, Felipe. PEC do teto é aprovada em votação final e congela gastos por 20 anos. Política, v. 13, p. 12, 2016.

BARRETT, Paul. White thumbs, black bodies: Race, violence, and neoliberal fantasies in Grand Theft Auto: San Andreas. The Review of Education, Pedagogy, and Cultural Studies, v. 28, n. 1, p. 95-119, 2006.

DUMÉNIL, Gérard; LÉVY, Dominique. Neo-Liberal Dynamics–Towards a New Phase. Global regulation: managing crises after the imperial turn, p. 41-63, 2004.

FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa. Mulheres, corpo e acumulação primitiva. Rio de Janeiro: Editora Elefante, 2017.

FISHER, Mark. Capitalist realism: Is there no alternative?. John Hunt Publishing, 2009.

FISHER, Mark. Ghosts of my life: Writings on depression, hauntology and lost futures. John Hunt Publishing, 2014.

FREITAS, Raque; ALMEIDA, Fabiana. Um ano após tragédia da Vale, dor e luta por justiça unem famílias de 259 mortos e 11 desaparecidos. G1, Minas Gerais, 25 de Jan. de 2020. Disponível em: <https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2020/01/25/um-ano-apos-tragedia-da-vale-dor-e-luta-por-justica-unem-familias-de-259-mortos-e-11-desaparecidos.ghtml>. Acesso em: 25 de Mai. de 2020.

G1. HÁ 3 anos, rompimento de barragem de Mariana causou maior desastre ambiental do país e matou 19 pessoas. G1, São Paulo, 25 de Jan. de 2019. Disponível em: <https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2019/01/25/ha-3-anos-rompimento-de-barragem-de-mariana-causou-maior-desastre-ambiental-do-pais-e-matou-19-pessoas.ghtml>. Acesso em: 25 de Mai. de 2020.

HARVEY, David. Neoliberalism as creative destruction. The annals of the American academy of political and social science, v. 610, n. 1, p. 21-44, 2007.

MONTES, Rocío. El País, 2018. Disponível em < https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/30/politica/1540925012_110097.html>

MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Sobre as origens e motivações do Ato Institucional 5. Revista Brasileira de História, v. 38, n. 79, p. 195-216, 2018.

PENABELLA, Miguel. Haywire Magazine, 2018. Disponível em <https://haywiremag.com/columns/opened-world-kentucky-route-zero-act-i/>

VENTURA, Zuenir. 1968: o ano que não terminou. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1988

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